27.10.08

A crise | | Egoísmos

Nunca percebi de economia, nem nunca tive pretensões de perceber.

Assustei-me, quando a tive que aprender (quer dizer, os meus conhecimentos continuam a não ir além da lei-da-oferta-e-da-procura...), porque até me deu gosto estudá-la pelo Samuelson, e pelos seus exemplos para meninos de cinco anos ("não se fazem omeletes sem ovos", dois mais dois são quatro, e assim...).

O mercado assusta-se, espirra e ameaça engripar-se. Ficar de cama. Talvez pneumonia.
Dizem...

Eu continuo sem perceber...
Deduzo, apenas, que a reviravolta das bolsas influencie os mercados cambiais...
É provável que influencie muitas outras coisas e que, dizem, possa passar das fronteiras das finanças para aquela economia maior dos empregos, dos preços baixos (acho que o petróleo e os cereais se andam a infectar...), da recessão (cruzes-canhoto).
Dizem, também, que pode ser o fim do capitalismo...
Que volta tudo a ficar em casa, protegidinho pela mão-visível do estado.
(O Mao, a esta altura, deve andar a dar voltas no seu mausoléu...)

Eles dizem, e eu acredito em tudo.
E continuo a deduzir aquela das acções e das moedas...
Já me tinha apercebido na Tailândia, aquando do último levantamento que tinha feito.
E eu a pensar cá para comigo que aquilo eram coisas dos confrontos em Banguecoque.

Porque eu também nunca percebi muito de câmbios. 
Acho sempre que é tudo ao contrário, e que quando se compra e recebe muito é porque está tudo mais caro... Ou mais barato. O que vale é que, como as moedas têm mesmo e sempre duas faces, nunca chego a fazer (muita) figura de menos esperta. Está-se ali a tentar saber quem é que está mais forte ou mais fraco, e vou tendo tempo para pensar em perspectiva...

Pois é!
Mas agora que estou a começar a sentir a coisa na pele, acho que vou ter mesmo que aprender a lição à força, apertar o cinto e respirar mais devagarinho...

Eu, a crise, nunca a vi, nem sei se vem lá, mas o que eu não dava para o Euro estar um bocadinho mais carito...

26.10.08

Ponyo, ponyo (pônhô, pônhô)

Os Estúdios Ghibli e o seu mestre continuam a derreter-me.

Se não fosse ter um namorado japonês, nem "As viagens de Chihiro" (que já tentei ver 3 vezes, mas que nunca consegui acabar...) me fariam embevecer...
Ele que me obrigou a ver Nausica e Laputa (pois, nome estranho, talvez).
Torci o nariz sempre, porque cenários futuristas e ficção científica animada nunca me atraíram.

Torci o nariz, como tantas vezes torço, e até (quase que) compreendi o meu pai, quando, regressada da China, dum regresso-de-vez-virado-regresso-de-só-alguns-meses, e vinte-e-cinco anos de idade, me apanha com a colecção quase completa das obras do Estúdio, assistindo, comovida (ao lado da minha irmã mais velha!), ao Totoro (um dos meus preferidos, e que me abre a porta todos os dias)...

Ainda lhe tentei explicar (e fazê-lo ver ::: e, se bem me recordo agora, acho que o obriguei a ver "Grave of the Fireflies"), que estes são desenhos animados para crianças, mas que os graúdos conseguem adorar, porque, para além de ser tudo infinitamente kawaii (os termos mais próximos em português que consigo encontrar é "fofinho", "querido", "giro" e em açoriano "requinho"), há mensagens enormes, infinitas e lindíssimas (preocupações ambientais, pacifistas,...) com as quais, facilmente, se podem identificar (e chegar à comoção).

Tudo desenhado com simplicidade e candura.

Na apresentação deste Ponyo, perdi a conta aos kawaiis manifestados em pouco mais de dois minutos e meio...
Apesar disso, o Ponyo é só isso mesmo... 

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24.10.08

Será isto o paraíso?

Hoje tive uma formação sobre reconhecimento de documentos falsos.

Fui pesquisar à net e encontrei isto.
Mas, depois, nos links que tinham, vinha isto, e pensei, afinal é mesmo só brincadeirinha....

Mas é uma realidade diária e há centenas de documentos falsos a entrarem todos os dias em aeroportos-fronteiras ocidentais...
Aqueles de que se soma a conta, claro...

No seguimento do festival de documentários nórdicos, em que pude assistir ao Paradise, e no seguimento de histórias de vida que já ouvi (e ouço) falar, a mim só me salta a pergunta: para quê?
Será que aquela velha lengalenga do sonho americano, tornado europeu, também, não é pesadelo?
Será que a vida destas pessoas é melhor ali?

Claro que há razões e razões para tudo!
Asílo político, fugir de guerras, de humilhações, de violações, de falta de liberdade e de expressões próprias.
De alimentos, sim. De água potável. De dinheiro.
De muita coisa.

Mas ir ali para sofrer humilhações, violações, enganos, falta de liberdade, de alimentos, de água, família, raízes...
Valerá a pena?
Valerá o risco?
Valerá a vida?

O que mais me impressionou em Paradise, foi a parte em que o jovem do Mali, trabalhor-honesto-emigrante-ilegal, envia 25 euros à família e tem que pagar 12 de comissão...
Foi um grupo de 52 fugitivos serem apanhados em Marrocos, e deixados ao abandono no meio do deserto (deserto de dias, deserto sem água, deserto sem roupa) pelas autoridades do país (que, pelos vistos, recebe milhões da UE para os impedir de chegar à Europa), e apenas 6, que sub-humanamente, sobreviveram...
Entre os que se ficaram, crianças...

Ouço histórias, imagino histórias...
E continuo sem saber...

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23.10.08

Hu Jia

Como é que alguém que defende os direitos dos portadores do vírus do HIV*, os direitos humanos e a protecção ambiental pode "ferir os sentimentos dos chineses"?

Há senhores embaixadores que poderiam medir melhor as palavras antes das proferirem...


* Na província de Henan, especialmente, há uns anos atrás, os governos locais apelavam à dádiva de sangue em troca de dinheiro.

22.10.08

7 factos, são tantos e tão poucos...

alguma vez, tinha que ser...

Um Quarto de Ideias continua a fazer-me corar (de orgulho e de vergonha...)

1.
nunca sei o que dizer
e, quando digo, geralmente, são as coisas erradas nas ocasiões certas

2.
sou muito preguiçosa
às vezes, até para comer
compro livros, mas não os leio
demoro imenso tempo a responder a emails

3.
não gosto que me toquem nos olhos ou nas unhas
(foi preciso muita coragem para a minha primeira manicura e deixo, geneticamente, crescer as unhas até não poder mais
ao contrário da S., não as consigo roer)

4.
custa-me muito dizer que não
a convites de jantar quando não tenho fome
a favores (por vezes, demasiado) grandes
a telefonemas longos, quando não tenho tempo
(mas, estou a aprender)

5.
tenho dificuldade em fazer escolhas
às vezes, gosto de tudo
outras, quando tenho mesmo que eleger algo, não há nada que "me peça água"
e creio que isso é pior que gostar de tudo

6.
o meu maior sonho, o maior mesmo
era fazer uma festa, no meio do deserto, no norte de áfrica, numa tenda gigante, onde estariam
todas as pessoas de quem gosto
e eu era a dj
e cantava as 4 únicas músicas de que lembro a letra
e era uma noite muito comprida
e haveria estrelas cadentes

7.
tenho medo de imensa coisa e assusto-me facilmente
tenho pânico a cães, mas sempre me apaixonou o trabalho dos carteiros
tenho medo de andar de avião
tenho medo de botijas de gás
tenho pavor de vento forte
fico tonta quando atravesso pontes pedonais
tenho medo de fogo-de-artifício
acho que tenho medo do escuro
e, às vezes, tenho medo das pessoas

Regras (copiadas da S.):
1. Link para a pessoa que nos "etiquetou", escrever estas regras no post.
2.Publicar 7 factos sobre nós mesmos, positivos, negativos ou simplesmente loucos!
3."Etiquetar" 7 pessoas no fim do post mencionando o seu nome e link para o seu blog.
4.Informá-los de que os "etiquetaram" deixando um comentário no seu blog.

Os informados são:


Mas só responde quem quer

20.10.08

Quem melhor do que ele...

"If I were king," Brel himself once said, "I would send all the Flemings to Wallonia and all the Walloons to Flanders for six months. Like military service. They would live with a family and that would solve all our ethnic and linguistic problems very fast. Because everybody's tooth aches in the same way, everybody loves their mother, everybody loves or hates spinach. And those are the things that really count."*



Para dizer o que sinto em relação a isto tudo?


E os alemãezitos de lá?
Que será deles?


Já nem digo nada....
Quer dizer... Até digo... Adoro espinafres!


* Daqui

17.10.08

Pinóquio-termómetro | | O professor Peter

Toquei na ponta do nariz, e está frio...

Já nem me lembrava.

E, então, lembrei-me de seguir à risca o ditado...

Sim, é mesmo verdade: o rabiosque e os pés também estão abaixo da temperatura média do restante corpo...

A primeira vez que ma contaram, foi o professor Peter que me disse. 
Diziam que ele era maluco.

Eu acho que ele só era diferente.

Eu lembro-me dele, às vezes.
Lembro-me dele quando tenho dúvidas...
E lembro-me dele, quando preciso de ter certezas!

Até agora, foi a única pessoa que me disse: "You can always get what you want!"
Na altura, pensei: "Ele acha mesmo que eu sou uma princesa!"
Agora, só agora, enquanto escrevo isto, me apercebo....
Que não foi feito para mim...
Ou que é uma frase feita!

Mas que importa?

Lembro-me...
E penso: "É mesmo verdade!"
Quero muito fazer daquela frase verdade....

13.10.08

De volta


© Rafaela Teves

De dias inteiros sem pensar.
De nem acreditar que fui de férias, de verdadeiras férias, de praia, areia, luz, sal, cores, sorrisos.

Sorrisos, especialmente, particularmente.

Contágio pegajoso que ainda trazia ontem, de manhã cedo, na Pequim fria, de céu azul.
Valha-me esse céu para que me permita prolongar a maleita.
Tentei um tímido sorriso ao senhor no metro, mas não me respondeu.
Imunidade chinesa ao vírus?

Descorreram-se os dias devagarinho, sem planos, dentro do plano geral, que foi cumprido.

Vi peixinhos e fui peixe, muito fora de água, desajeitada, desconcentrada, destímida, medricas.
E a sensação de me sentir velha...
Falsamente, com a botija maior que eu às costas, e um tubo espetado goela adentro, a imitar a atmosfera. Uma endoscopia às travessas...

Vi monges cor-de-laranja, pequeninos, maiores, todos calmos, a falar exotismos da língua tonada, mas mais bonita que a de cá.
As letras (letras?), desenhinhos de crianças.
A morenagem das peles suadas ou resfriadas pelo ar-condicionado.
O sexo do meio presente, sempre a fazer levantar sobrolhos de desconfiança de "será-que-é-será-que-não-é-será...?", e a descontracção do talvez sim...
Ninguém repara, ninguém se importa, e continuam todos a sorrir.
Tudo verde de palmeiras, tudo colorido de frutos e cheiroso de duriões, o fruto-rei (porquê, meu deus, se é tão mal cheiroso?).

Tudo dorido: da massagem, da verdadeira, das escadas maiores que meia perna, do avião, do autocarro, do barco, do barco, outra vez, do autocarro, outra vez, e outra vez, do comboio, outra vez, do barco, devagarinho, de caminhar entre candidatos eleitorais em cenários estranhos, das cores ofuscantes dos táxis...
O trânsito, novamente, ao contrário... As motas, com três passageiros constantes em média, os tuk-tuks...
Tudo desodorizado nos colares de flores que enchem os carros, as ruas, as casas...

Não trouxe cheiros...
Não me lembro já a que cheira a Tailândia (ou talvez sim, mas está cá dentro).
Trouxe luz...
Trouxe a cor na pele, que há muito já esquecera possível.
Trouxe banhos de mar, nua, já quase madrugada, com os relâmpagos ao longe...
Trouxe o sal na toalha que vou guardar, intacta, imunda, feliz...
Trouxe a languidez dos cães, dos gatos, das baratas, das pessoas...
Trouxe os pés descalços antes de entrar, mas a areia já a deitei fora...

Trouxe tanta coisa...*

Mas agora, estou de volta.

* Série pequenina de fotos

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