A besta
Eu acho sempre que estou a fazer uma boa acção...
Nem é bem boa acção.
Talvez seja mais não conseguir dizer que não a colegas que vão de férias e têm animais de estimação.
Depois de um par e meio de canários, agora é a vez dum hamster.
Sendo um mamífero, tem naturalmente mais agilidade e vontade de querer sair da gaiola. Penso eu. Penso eu que não sou canário e já não sei voar...
Ponho-o (a, neste caso, ponho a Lili) numa bolinha, para que possa andar à vontade pela casa sem ninguém a pisar.
Lá anda ela, para trás e para a frente, e às vezes fica presa nos fios ou nas superfícies côncavas da casa. Só dou por isso quando deixo de ouvir o vai-e-vem cilíndrico da sua armadura laranja.
Quando penso que já está farta de andar contra tudo, volto a pô-la na casa côr-de-rosa de barbie.
Não passam cinco segundos, e já está a tentar abrir a prisão onde vive.
Ontem deixem-me de piedades e vou ter que me deixar de piedades.
Não lhe quero incutir maus hábitos e agora não há excepções: explorar esta minha prisão só dentro da redoma de plástico. Não há cá libertinismos de a deixar à vontade e deixá-la perder-se por aí.
Lembro-me sempre daquela história da baleia no aquário que se pergunta:
"Do all oceans have walls?"
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