12.12.07

Tabi | | Os meus pés de caranguejo




© Rafaela Teves


Estes sapatos têm uma história...

Há alguns anos atrás, ainda nos tempos da universidade, costumava passear na Baixa até mais não.
Um dia, no meu passo apressado comum e a cabeça a olhar as pedras da calçada, deparo-me com estes pés azuis de lona.
E foi um "Uauuu" interior que nunca mais parou.

Procurei em todas as marcas possíveis e imagináveis, e só encontrei uma versão que não me agradou tanto na
Nike ou na Asics.
Anos depois, lembrei-me de ir ao Japão, só assim por acaso. 
E encontrei-os em toda a parte! Até mesmo os meninos que puxam os riquexós levavam uns...
Em Kyoto, nas lojas de souvenirs, eram demasiado caros. Em Tokyo, há uma loja, So-So, que só vende este modelo de sapato em tecidos lindos, mas a preços exorbitantes. Mas depois, fomos à feia Osaka, já quase a caminho de vir embora... E é, então, que encontro meia-meia dúzia de rapazes em plena conversa de rua com eles calçados... Obriguei o meu cheio-de-salamaleques-namorado a perguntar-lhes onde seria possível obter um par como o deles. Relutante, com receio de que fizessem parte dalguma mafia local qualquer, o K. ficou sem escolha. Fiquei, também, de olho nas
calças que traziam*, e que harmonizavam na plenitude com eles. 
Depois de "nos" (lhe) explicarem o local da loja, apanhámos o metro, e lá fomos.
Quando lá chegámos, a uma loja de "trolhas", descobri que só tinham o número acima. Mas tanto me fazia... Já ganhei este hábito japonês de deixar os pés à vontade. Por isso, não pensei duas vezes, e trouxe um par. Apenas as calças eram demasiado grandes para o meu corpo de criança.

Depois de tanto tempo à procura, devia ter desconfiado muito antes, quando o K. me ofereceu umas meias assim de um dedo mais quatro... Mas pensava que era somente para serem usadas com as geta.
Então, ensinou-me que estes sapatos são maioritariamente usados pelos trabalhadores da construção civil, porque a sola, feita de borracha com um feitio especial, estão aptas para "agarrarem" as superfícies mais difíceis como, por exemplo, telhados.

E, de facto, são muito confortáveis... 
Agarram tanto as coisas, que é difícil pedalar a minha bici, com os pés pregados aos pedais...

Aqui e aqui ficam mais algumas lindas ideias.

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10.12.07

A minha primeira feijoada (anti-vegetarianos)


© Rafaela Teves

No primeiro dia de neve deste Inverno

Receita da minha mãe, que lhe ensinou a sua sogra, a minha avó-paterna


1. Leva-se a fritar o bacon e o presunto
2. Junta-se a cebola picada
3. Deixa-se a cebola alourar e cozer em lume brando, com o tacho tapado
4. Depois, junta-se a carne de porco previamente salgada e cortada em pedaços(a minha mãe falou-me em carne abaixo do joelho, mas isso é difícil de explicar e de encontrar aqui...), um repolho sem a parte dura de dentro e polpa de tomate, e deixa-se cozinhar em lume baixinho
4. Quando a carne estiver cozida, juntam-se os feijões previamente cozidos, em panela de pressão ou de lata (eu fiz com feijão vermelho, que sempre foi tradição lá em casa, até a minha descobrir o feijão-manteiga, que diz que é melhor; eu prefiro o vermelho, da côr da feijoada), com o seu molho e um piri-piri
5. Deixa-se estar um bocadinho de tacho tapado, e em lume brando 
6. Prova-se de sal e junta-se uma colher de sopa de açúcar
7. Deixam-se as couves cozer bem 
8. Serve-se com arroz branco, solto e seco

Et voilà

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2.12.07

J'♥*

Descobri-a num dvd do K., no Later, e foi assim... pele de galinha instantânea...

O K. foi embora, eu fui embora, e ficou adiada...

Com a ajuda das aulas de francês e do romantismo da língua, reencontrei-a numa lima...

Para mim, é assim como uma Bjork à francesa... 
E está tudo dito!

* Je t'adore beaucoup aussi, mon amie!
 Parabéns para ti e para vocês!

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1.12.07

O Tintim e os Estrunfes | | Trabalho de campo

Eu antes de vir aqui todos os dias, não sabia nada sobre a Bélgica.
Ou melhor: nem sequer pensava nela. 
Para mim, era daqueles países de que sempre se ouviu falar e que está sempre lá, e pronto.

Tirando Bruxelas, a capital da Europa, e as suas couves, que eu adoro; o Benelux e a CECA; o minúsculo menino que fax xixi, símbolo nacional; a neutralidade não respeitada na 2ª Guerra Mundial ("não é neutro quem quer, mas apenas quem pode"), vim parar aqui sem outras noções sobre o país.

Por certo, já ouvira falar do chocolate belga, do Tintim, das wafers, de Jacques Brel, de Wim Mertens, de Magritte, de Bruegel, o Velho, dos diamantes da Antuérpia...

Uhmmm... De que mais?
Da menina Marie, que falava francês. Que me esquecera que era belga...

Com todas estas pessoas, acontecimentos ou coisas, eu nunca pensava: "Olha, este belga! Sim senhor!"
Era mais: "Olha este senhor que canta tão bem..." Ou: "Que delicioso chocolate marítimo!"

Não é que actualmente racionalize as coisas como sendo belgas ou não.
É só mesmo que vou descobrindo novidades a cada dia.

Por exemplo, aquela de que as French Fries afinal são belgas...


O Tintim vai-me espiando, pegado à parede (e agora também sei que o Hergé nunca pôs os pés na China).
O menino da popa mais o seu foguetão continuam a ser os melhores embaixadores da Bélgica pelo mundo, mas só outro dia é que descobri que os Estrunfes também têm a mesma nacionalidade. 
Também nunca tendo estado em solo sínico, os pequenos bichos azuis que habitam cogumelos talvez não sejam tão famosos, explicaram-me, porque não são considerados uma BD tão "culta" como a do jornalista e o seu amigo canino.

O Sint Klaas é outra figura venerada pelos belgas.
A tradição, praticada a favor dos mais pequenos, é levada à séria: o Pai Natal, o seu cavalo e os ajudantes distribuem pequenos presentes pelas crianças, embora a oferta de lembranças se volte a repetir na Consoada, mas englobando já os graúdos.

Agora também sei que falam três línguas: francês, flamengo e alemão.
Mais duas do que três e só as duas é que andam às turras (descobri que a terceira não tem poder suficiente para a testa dura).
Não raras as vezes,  ouço pelos corredores daqui um flamengo a falar francês com um francófono, que lhe responde em flamengo.

Têm umas eleições muito complicadas e boletins de voto do tamanho de mapas-mundi, que, dependendo das regiões para as quais se vote, vêm em uma ou duas línguas.
Foram, precisamente, as últimas eleições que trouxeram a ameaça de cisão.
Pode ser que, um destes dias, se passe a ouvir falar em Reino da Belga e República da Gica. Sim, porque o rei teria que optar para que lado se virar. Ou então teríamos uma família-sangue-azul a menos a governar na Europa.
Vou sorrindo a estas desavenças familiares...

Mas eu acho que não. 
Acho que os belgas vão continuar a ter os nórdicos e os latinos no corpo: quando lhes pedirem para dançar tango, vão ficar hirtos. E quando lhes pedirem a valsa, vão querer abanar as ancas...

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