25.8.07

And true love waits*


© Rafaela Teves *2

Hoje falei de ti em francês.


Disse que me ajudarias nas limpezas da casa e a comer os bolos péssimos que faria para nós.

Disse que me contarias histórias fantásticas e mirabolantes, que me farias rir todos os dias e que haveríamos de viajar muito, junto ao mar, e que nadaríamos nus ou apanharíamos um barco para ver o pôr-do-sol.

Que daqui a trinta anos teria muitas rugas, faria muitos bolos, seria muito gorda, mas feliz, e que levaria os meus netos ao circo.


Disseram que era para utilizar o futuro, mas não aquele próximo.

Esse está já quase...

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*2 | | Foto de foto

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16.8.07

Lição 9 | | Como aprender a ficar calada

Disse o que achava: que os chineses não estão muito habituados a falar e a dar a sua opinião.

Logo veio uma colega dizer que os estrangeiros dão muito facilmente a sua opinião sobre os chineses, que dizem que comem sushi, que dizem que são assim e que são assado.
Outra colega tentou perceber porque é que na Europa falam em "Tibete livre", quando é um assunto que, considera, não lhes diz respeito.

O professor meteu a pata na poça e pediu, então, para que se falasse sobre a opinião que os chineses têm sobre a França.
Um falou, e logo o professor disse que pois, na China são individualistas e que a comuna não é bem assim como a fazem ainda persistir.
Concordo, concordei. Mas sim, foi de mau gosto começar-se um assunto tão "sensível", numa aula só com chineses, exceptuando eu e o professor.

Serviu-me de emenda e de lição: primeiro, começar a ficar calada quando devo (quase sempre), e depois descobrir que os chineses, além de não estarem habituados a dar a sua opinião, não sabem o que uma opinião é.
Principalmente, se fôr negativa.
A auto-crítica talvez tenha sido apenas uma invenção imposta no comunismo.
Não conseguem alcançar aquela coisa que é, então pensas assim, mas eu não concordo, e não concordo por isto, por isto, e por isto.
Não, limitam-se a não concordar e a ficar com o orgulho ferido. E talvez a desejar, como já os antepassados, que nenhum destes laowais com perspectivas menos positivas ou só diferentes devesse ficar por aqui.

O que mais me aflige é que até me senti mal por dizer o que pensava.
Será que é o sistema?

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13.8.07

As SAR's*






© Rafaela Teves

Fui viajar outra vez.

Desde a última viagem, parece que já passou um ano.

Agora que a minha urticária aparenta ter deixado de ser crónica (não me lembro da última vez que tomei um Aerius), ganhei uma tendinite, que parece querer persistir.
Por essa razão, fui pela primeira vez a um hospital sino-japonês de medicina ocidental: primeiro, à parte comum, dos chineses, onde paguei menos de 90 cêntimos para ser observada, de porta aberta, e já com o paciente seguinte sentado dentro do consultório; da segunda vez, na parte internacional, onde se paga muitas vezes mais e onde o diagnóstico foi idêntico.

De braço ao peito, rumei a sul.
Para lá, houve um atraso de 7 horas.
Entre um hotel de 3ª classe abaixo de zero e muitos berros, cheguei a Guangzhou, novamente, para partir depois para a Meca das marcas: Hong Kong.
As pessoas limpas, cheirosas, coloridas, arejadas, anglófonas, simpáticas, prestáveis.
Nunca antes vira tantos 7 eleven por metro quadrado, tantas lojas por metro quadrado, prédios fininhos, muito altos, tudo minúsculo. As ruas estreitas, os eléctricos de 2 andares, à maneira da ex-colónia, o sentido dos carros exactamente excêntrico, de medo de atravessar a estrada, porque sempre a olhar para o lado errado. Água, água, cheiro a mar, e peixes a saltar ao pôr-do-sol, acompanhando os turbo-jets.
Tudo caríssimo, mas eram meio-férias, meio-a-sério, por causa do visto. Agora, sou turista de direito!
Civilização, manifestações seguidas em directo pela t.v.
Um quarto minúsculo, onde só cabia eu e mais metade de mim. Um quarto num prédio que parecia o Martim Moniz: chineses, africanos, indianos/paquistaneses. Filas para o elevador à hora de ponta.

O barco, meio dormente, para Macau.
Ah, chegar e ver o céu azul, o sol a queimar, como em Portugal, a fealdade, como em Portugal, sardinhas assadas e uma Sagres, como em Portugal.
Tudo ainda mais pequenino, pontuado de cores aqui e ali nos prédios coloniais que vão, de repente, aparecendo.
Algum português falado nos Correios, onde a filatelia da ex-metrópole permaneceu.
O português também no nome das ruas, mas agora em segundo lugar. A Polícia Judiciária, o advogado...

Casinos, só à beira-mar, mas tanto em Macau, como em Hong Kong, muito mais fervor religioso.
Por todas as portas, pequenos "altares" a chamar a fortuna, e caixotes de metal para se queimar o dinheiro-de-brincar, as roupas-de-brincar, as dentaduras-com-escovas-e-pastas-de-dentes-de-brincar, para que não falte nada aos que já partiram. Roupa, comida, ares-condicionados, carros, cães, gatos, sapatos tradicionais ou de salto-alto, tudo feito de papel.
E por entre ruazinhas, descobri que os ninhos de andorinhas (para as sopas) existem mesmo. Mesmo.

De volta à capital, mas desta vez com 8 horas de atraso.
Dizem que era o tempo, trovoada e muita chuva.
Talvez seja daquela provocada, para que nada possa estragar o grande acontecimento dos Olímpicos.

Em Tiananmen, fizeram a festa como se fosse a verdadeira, quando ainda falta um ano.

Ontem, voltou a chover estranhamente, com direito a granizo. Nada impediu que um leilão organizado por estrangeiros para apoiar a luta contra a lepra decorresse com sucesso.

E depois, depois das tempestades, vêm dias azuis como nunca vira por aqui.


Neste primeiro Verão em Pequim, ando cansada entre trabalho e aulas de francês.


* "Special Administrative Regions" - mais fotos, aqui.

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