24.11.06

Lição 6 || Revolução Cultural


© Rafaela Teves


Antes de deixar de ir às aulas, houve um texto que falava sobre o gosto que as pessoas de Pequim têm em falar sobre política.

Que venham ventos ou tempestades, venham revoluções culturais ou boxeurs, que eles continuam a ter a coragem de falar sobre política, o regime e o sistema.

Se eu não tivesse tido aquela aula, ia jurar que era mentira ler um textos destes, que era só para ocidental ver.

Mas depois a professora pôs-se a falar sobre a Revolução Cultural e o Bando dos Quatro, e o quanto os seus pais tinham sofrido por irem para o campo e terem ficado dez anos sem poder ir à escola, mas que até eram uns felizardos, porque não tinham ido para o sul, aí é que era, couro e cabelo, e o quanto eles até lhe diziam para ela nem falar mal e o quanto aquela geração nem sequer quer falar, que é mesmo muito calada.

Eu até já desconfiava que as coisas estavam a mudar neste sentido.

Ela deu-nos vários temas à escolha, no início do ano, para desenvolvermos por escrito, e muitos desses temas incluíam assuntos que considerava tabu...

E depois um dia fui jantar, e um grupo de chineses meteu conversa e até me perguntou o que achava sobre a questão de Macau.

E depois vi dois filmes sobre a Revolução Cultural: "O Papagaio de Papel Azul" e "Chine, Ma Douleur". Já tido lido "Cisnes Selvagens".

E, de facto, é incompreensível, nas palavras da minha professora, tudo aquilo que se passou.

Nas palavras da minha professora!

Ouvir isto dum chinês nem chega a ser magnífico, pela surpresa, mas é uma surpresa.

No entanto, as pessoas continuam a ir a Tiananmen tirar fotos com o retrato do sr. Pêlo* da Verruga em fundo, às portas da Cidade Proibida dos ex-imperadores.
Continua a haver Tiananmen e o massacre (já sem Mao). Continua a China a bater recordes em execuções (minimizadas oficialmente em 4 a 6 vezes!). Continua a haver presos políticos e jornalistas presos (vêm aí os Olímpicos e há medalhas a ganhar). E as pessoas não se podem revoltar se isso implicar a política vigente.

E isso agora é o progresso!
O progresso em nome do povo!

É, os chineses, como sempre, continuam habilmente a deturpar tudo.
Porque, segundo agora consideram, o capitalismo sempre foi um dos estádios para o culminar do comunismo!

Esta parte é para chinês ver...
Ou então é para se esquecer...

Só há memória para os caracteres!


* Mao (de Mao Zedong 毛泽东), entre outras coisas, significa pêlo.

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23.11.06

Convencimento



© Rafaela Teves


Sombra e silhueta são palavras tão lindas e tão juntas...

Mas a distância entre elas é tão grande e tão bonita!

É como andar de táxi...
E ver a noite lá fora...

É que às vezes pareço descabelada.
Isso é silhueta!

Às vezes pareço descabelada.
Isso é sombra!

E há vezes em que pareço donzela...

Ah! Mas isso é reflexo!

(E às vezes, vice-versa...)

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22.11.06

Ingratidão || Receita


© Rafaela Teves

O tempo que demorou a semear o trigo, a regar o trigo, a ver crescer o trigo, a colher o trigo, a embalar o trigo, a moer o trigo, a empacotar o trigo, a amassar a farinha de trigo, a descascar a cebola, a lavar o tomate, a cortar o pimento e o cebolinho, a criar a vaca, a matar a vaca, a transportar o cadáver da vaca, a desmanchar a vaca. O trabalho que deu a ligar o lume, a construir os canos, a pôr gás lá dentro, electricidade nos fios, cimento nos tijolos, moldar o ferro (anti) oxidante do tacho, tirar o óleo do girassol, que perdeu dias à volta dele, fazer o prato e a colher, pôr-lhe o sal e o corante.

E depois, deixei metade no prato!

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21.11.06

E aos não sei quantos dias, eles desbloquearam o blogspot...


© Rafaela Teves


Quero escrever sobre isto com a maior das urgências....

Tenho referido nos cadernos onde vou apontando coisas, este documentário que vi há quinze anos atrás, quando era muito pequena e me começava a formar como pessoa.

Esse documentário mudou a minha vida, e fez-me crescer, durante uns anos, demasiado ortodoxa em relação às questões ecológicas.
Começava-se a era da globalização, era a Conferência do Rio, entretanto esquecida...
Nesse filme-álbum com direito a interlúdios de anúncios inteligentes e mordazes, tentou-se, através da música, percepcionar o quanto os nossos gestos de Humanidade estão interligados, e fazer ver que a poluição, tal como a língua universal da música, não tem fronteiras.

"Um Mundo, Uma Voz"* aparece-me constantemente na memória, especialmente aqui na China, onde consigo aperceber-me do quanto a questão é gigante, enorme, universal.

Aqui, como é tudo em grande, como já havia referido neste blog, é fácil de imaginar e fazer contas de somar muito simples como China+Índia+E.U.A.

Eu até percebo que os países tenham o direito ao seu crescimento, mas quando esse crescimento é feito à pressa e à procura do imediatismo monetário, pondo em causa tudo aquilo que já se sabe sobre a matéria, e logo, pondo em causa o futuro de todos nós, preocupo-me, torce-se-me o peito e penso que por muitos quilos de reciclagem, água, luz, gás que possa poupar, parece que o meu minúsculo contributo não pode fazer nada...

Até que veio este senhor de quem já tinha ouvido falar quando foi Vice-presidente dos E.U.A. e que sempre me comoveu pelo seu interesse na questão.

Neste novo documentário com direito a tempo de antena política, claro, e talvez um pouco americano demais, Al Gore revela dados científicos que já todos sabemos por intuição.
Ainda que político, dá-se destaque a uma pessoa que tem um certo poder para a influência, e que dá a entender que, caso não fosse a sua derrota face ao sr. Arbusto, a contribuição norte-americana para a mudança da coisa pudesse ser diferente.

Não nos esqueçamos que os E.U.A. continuam a ser um dos maiores emissores de CO2 e um dos poucos grandes países que ainda não ratificou o Protocolo de Kyoto.



Assim sendo, se puderem, vejam "The Inconvenient Truth" e não se esqueçam de reciclar o bilhete de cinema...

Eu sou daquelas que acha que o meu voto pode fazer a diferença nas urnas, e continuo a ser daquelas que acredita que os pequenos gestos podem contribuir para algo.

Quando eu for ditadora, aí tomarei medidas drásticas...



* Disponível na Fnac, mediante encomenda, em dvd e em cd.

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