Barragem *

© Rafaela Teves
Sobre o desconhecido
Ou sobre a descoberta
Barragem há-de ser aquilo que barra a água barrenta com a força duma aragem.
Ando dividida entre o idealismo da juventude do armário e entre o federalismo capitalista da maioria dos portos-francos.
Gosto de sandálias de couro cosidas à mão pela gente que ainda não tem (ou não pode ter, ou não quer ter) micro-ondas, mas ando fascinada por sapatos de salto alto em plástico colado por meninos de países de que nunca ouvi o nome.
Dantes, olhava para uma banana da Martinica e pensava: como será a vida da pessoa que colheu esta casca dura e amarela para mim, ou a da que a transportou até ao avião, como será ser-se banana no porão, quando eu vou em segunda classe lá em cima, quem foi o português que a lavou e a colocou na cesta do mercado…
Digo isto às pessoas que me deram a descobrir as barragens, que me deram a descobrir que há milhares de aldeias da luz submersas ainda com a gente lá dentro, mas noutros portugais (e a luz com água não dá curto-circuito?), e os mesmos descobridores me explicam que, ao fim e ao cabo, é tudo por causa de imensos círculos que se intersectam, círculos económicos ou círculos económicos que se zangaram uns com os outros e criaram novos círculos económicos.
Quero ser ditadora! Para fazer esta vida recheada dum quadrado, ou então quero esquecer tudo e nem sequer dar-me ao trabalho de pensar em formas geométricas, ou em vidas distintas que nunca poderei melhorar, porque há mesmo dias em que não acredito nas borboletas da paz e da solidariedade e no seu efeito, só nos tufões, que até há bem pouco tempo só paravam nas casas dos pobres.
Quero acreditar então que um dia vou poder esquecer e casar com um agricultor ou um pescador no Alasca, e fazer compota de maçã, quando nem sequer gosto de compota de maçã, e esperar que o ponto-carreirinho saia bem todos os dias, e apertar-se-me o coração somente porque chove e a roupa se molha, e não porque alguém um dia viu a sua vida enterrada e esquecida dentro duma água barrenta para sempre em nome do progresso…
Há dias em que é muito difícil ser-se…
Há dias em que não acredito que dias melhores alguma vez virão…
Quero ser ditadora e fazer compota de maçã…
* Drowned out, documentário realizado por Franny Armstrong, que conta a evolução da construção da gigantesca barragem de Narmada, é imperdível.
O movimento que ainda continua a sua luta para que as obras parem, e a vida dos milhões de indianos que já foram deslocados seja dignificada, tem um site: www.narmada.org.
É bonito de se ver que a luta silenciosa ensinada por Gandhi é deveras eficaz e ainda é aplicada!
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