30.9.06

Barragem *


© Rafaela Teves

Sobre o desconhecido
Ou sobre a descoberta



Barragem há-de ser aquilo que barra a água barrenta com a força duma aragem.

Ando dividida entre o idealismo da juventude do armário e entre o federalismo capitalista da maioria dos portos-francos.

Gosto de sandálias de couro cosidas à mão pela gente que ainda não tem (ou não pode ter, ou não quer ter) micro-ondas, mas ando fascinada por sapatos de salto alto em plástico colado por meninos de países de que nunca ouvi o nome.

Dantes, olhava para uma banana da Martinica e pensava: como será a vida da pessoa que colheu esta casca dura e amarela para mim, ou a da que a transportou até ao avião, como será ser-se banana no porão, quando eu vou em segunda classe lá em cima, quem foi o português que a lavou e a colocou na cesta do mercado…

Digo isto às pessoas que me deram a descobrir as barragens, que me deram a descobrir que há milhares de aldeias da luz submersas ainda com a gente lá dentro, mas noutros portugais (e a luz com água não dá curto-circuito?), e os mesmos descobridores me explicam que, ao fim e ao cabo, é tudo por causa de imensos círculos que se intersectam, círculos económicos ou círculos económicos que se zangaram uns com os outros e criaram novos círculos económicos.

Quero ser ditadora! Para fazer esta vida recheada dum quadrado, ou então quero esquecer tudo e nem sequer dar-me ao trabalho de pensar em formas geométricas, ou em vidas distintas que nunca poderei melhorar, porque há mesmo dias em que não acredito nas borboletas da paz e da solidariedade e no seu efeito, só nos tufões, que até há bem pouco tempo só paravam nas casas dos pobres.

Quero acreditar então que um dia vou poder esquecer e casar com um agricultor ou um pescador no Alasca, e fazer compota de maçã, quando nem sequer gosto de compota de maçã, e esperar que o ponto-carreirinho saia bem todos os dias, e apertar-se-me o coração somente porque chove e a roupa se molha, e não porque alguém um dia viu a sua vida enterrada e esquecida dentro duma água barrenta para sempre em nome do progresso…

Há dias em que é muito difícil ser-se…
Há dias em que não acredito que dias melhores alguma vez virão…

Quero ser ditadora e fazer compota de maçã…


*
Drowned out, documentário realizado por Franny Armstrong, que conta a evolução da construção da gigantesca barragem de Narmada, é imperdível.
O movimento que ainda continua a sua luta para que as obras parem, e a vida dos milhões de indianos que já foram deslocados seja dignificada, tem um site:
www.narmada.org.

É bonito de se ver que a luta silenciosa ensinada por Gandhi é deveras eficaz e ainda é aplicada!

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29.9.06

Mar salgado


© Rafaela Teves

Tenho esta maneira portuguesa de ser…

Refilo sem nada mexer.
Refilo com os dias, sentada, à espera.
Refilo a todos os lados, tento evitar a nacionalidade em contracções na cara, indismentíveis.
A minha testa diz lá tudo!

Fico fado, de repente,
Fico alegre, constantemente!
Com o peso da tristeza presente,
Em tudo aquilo que toco!

Tenho cinco quinas,
Cinco espinhos,
Cinco sementes!

Tenho a força do Viriato, a poesia de D. Dinis, a fatalidade da Inês, a ligeireza da rainha santa.

O caldo verde corre-me nas veias, as luzes dos santos, às vezes, iluminam o meu olhar, tenho a multipersonalidade da Pessoa que na rua apregoa ao vento as castanhas do Outono.
Tenho areia e sal na pele, tenho caruma no cabelo, o cheiro dos eucaliptos da mata.
Tenho o uivo dos lobos das montanhas do interior, com oregãos a temperar todo o cenário, tenho o ópio de Pessanha a Oriente, o verde das vacas nos minúsculos pontos nessa terra líquida que insisto em sobrevoar.

Tenho árabes e nórdicos no corpo, cristãos na família, judeus nos nomes, xintoístas no coração.

Sou portuguesa…
Sou uma cidadã do mundo…


* Dois (jornalistas) portugueses em Pequim, com duas maneiras muito diferentes de serem portugueses e pessoas, e logo, de escreverem o que pensam daqui e do mundo.
Um, parece que gosta de ridicularizar os pontos ridículos da China. There's more to life than that, though...
A outra menina, afinal perdeu a validade no anterior semgarantia.blogspot.com, e está aqui novamente e muito bem!

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Cada vez mais...


© Rafaela Teves

Eu gostava de ter sido Pessoa dentro dele...

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25.9.06

Império que me envolve*.**


© Rafaela Teves

E depois há disto!
E só agora o descubro…

Sozinha, por aqui, e agora sem medo de errar na pronúncia, no tom, na fala, aventuro-me a sair e a dar-me com os autóctones.

Falo com eles sem pudor, pergunto-lhes como vão, quanto custa, o que é isto, o que fazem, o que é que estão a comer? é saboroso? e se juntarem oregãos?
Eles sorriem, naquela maneira inocente só deles, e começa-se tudo de novo.

Como uma corte à moda antiga, perguntam-me como me chamo, se posso dizer a minha idade (que ainda soa estranha no b.i. que brevemente caducará), se gosto da China e dos chineses.

Gosto e não gosto, digo-lhes já sem vergonha, porque agora posso dizer sem vergonha.

Só não lhes posso dizer que há dias em que os adoro, porque isso, nem eles nem eu compreenderíamos…


* A M. posso dizer todos os dias, especialmente hoje, que é o seu aniversário! Muitas parabéns, meu menino!
** Já provaram bacalhau com haggis? Não é que agora já há disso, e está na Escócia, mas também no blogspot. Boa sorte para dos dois, E. e P.!

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24.9.06

Império do Meio


© Rafaela Teves


Não sei se é dos telemóveis, mas ando aqui cheia de magnetismos.
Porque, tal como outro dia com o amor, a China é um íman.
É um íman-desíman/amor-desamor.

Porque há dias em que lhes louvo a visão do desenvolvimento, noutros critico-os pelo ritmo acelerado em que o fazem.
Há dias (todos os dias!) em que me apetece dar-lhes estalos, esbofetadas tresloucadas, porque a gente apita-lhes para que eles se desviem do caminho, e o que é que eles fazem? Páram! Páram?! Mas páram como?! Porquê?!
Não, eles páram à nossa frente!
É como a do que cão que morde quando se diz senta e ataca quando se diz deita!

Mas, sinceramente, não acho que seja um problema de linguagem.
É apenas… talvez… a maneira chinesa de ser.

No primeiro dia, segundo dia, terceiro dia a gente cai aqui e fica risonhamente feliz de poder recordar tudo. Depois, devagarinho, ouve-se ao fundo, constantemente, este dialecto entonado em cuspidelas, em peles amarelas que absorvem todo o castanho em que insistem em vestir-se.

Eu até digo, em Roma sê romano, mas aqui o império é o do meio desvirtuado.
É tudo falso! O tabaco, que pesa tanto nos pulmões, as sapatilhas, o sal, que aqui tem nome científico, os isqueiros, que nos explodem nas mãos, os sorrisos amarelos da pele deles!
Ao quarto dia, a gente já diz tanto mal disto tudo. Ao quinto dia, concorda-se com a pena capital, ao sexto dia, se nos disserem, então vai-te embora, a gente até é capaz de ir.
Mas depois volta-se…
Volta-se sempre!

Será que é por esta intermitência do agora-percebo-agora-não?
Será que o império é o do meio por isso mesmo?
Porque, tal como o centro da terra, tem um íman gigante lá dentro?

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23.9.06

O mundo todo (trocado) em Pequim


© Rafaela Teves

Ontem fui à Bélgica.
Estava em Pequim, dei um passo e estava lá.
Não sei se fui a Bruxelas ou se percorri o país todo entre corredores. Mas havia reis a espiar-me por todos os lados.

A Bélgica fica em frente de Espanha e à frente de Portugal.
Portugal, onde dantes era o Japão, fica ao lado do Togo e atravessa-se o rio da estrada e vai-se ao México.

Outro dia, estive em Londres e nunca visitei o Reino Unido, e já fui a Paris, mas nunca estive em frança.

Mas ontem estive na Bélgica sem nunca lá ter ido.

E o mais provável é que passe a ir lá todos os dias sem nunca lá pôr os pés.

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21.9.06

Irei à bruxa? Consultar o almanaque?



© Rafaela Teves


Agora fiquei nervosa.
Não tenho jeito nenhum para ser…

A boca seca-se-me.
Inicio a gaguejar… A ciciar…
Dislexo tudo!

Ter que optar entre a lucidez dos mortais ou a leveza sustentável de aqui de dentro.

Suo friamente. Nas mãos…
Tremo. Da cabeça aos pés…

O desconhecido é fantasticamente assustador!
Mas aqui, que ninguém nos ouve, até acho graça ao medo!

BUUUUUUUUUU!

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20.9.06

Lição 2


© Rafaela Teves

Não é a noite escura que, como um rio galopante, ameaça engolir-me.

A solidão não vem do escuro.
Vem das pessoas…



* Sexta-feira STOP
Entrevista STOP
Vistos STOP
Porque sempre adorei a popa do Tintim STOP

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19.9.06

Ci-éne-éne-bi-bi-ci-tê-vê-sanque-tê-ube-é…


© Rafaela Teves


Es la plata, stupid!
Es el oleo, stupid!
Es el dolar, stupid!
Es el gucci, stupid!
Es la aparencia, stupid!
La plata que cintila…
La plata que tintilha…
La plata, la plata
La plata que brilha!
Es la disco, stupid!
Es la cena con los gringos, stupid!
Son los gringos, stupid!
Es el scupe, stupid!
Es la paranoia, stupid!
Es el euro, stupid!
Es el G8 con el G7 más uno, stupid!
Es Al Qaeda y la CIA, stupid!
Es Hollywood, Bolliwood y el botox, stupid!
Es el Boeing y el Airbus, stupid!
Es la luna, stupid!
Pobrecito, agora o Plutão já não é planeta!
Es Suiza, stupid!
Con oro lá dentro…
De nazis e de aliados…
Es la moneda que tem sempre dois lados.
Es Fidel y Cuba y hasta siempre, camarada!
Es la roleta russa…

La plata!
La plata cintila e não pára de correr…

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18.9.06

Globalização




© Rafaela Teves


Outro dia, um português de Bruxelas formalizou o seu casamento com uma mongol em Pequim.

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17.9.06

Lição 1 (à moda da Adriana)



© Rafaela Teves

Os estudantes não páram de vir, a economia não pára de crescer, os prédios não páram de aumentar, os chineses não páram de engordar, os turistas não deixam de admirar, os carros não deixam de apitar, as luzes já não se apagam nunca, a noite não acaba jamais, o sol está encoberto durante o dia, os pobres estão mais pobres, os burros estão mais ricos, as árvores dão pauzinhos, o petróleo dá o saco onde vêm os pauzinhos, os pauzinhos e os seus sacos dão lixo que vai até à Lua, que dá a volta à Lua e que volta de novo da Lua, há este ping-pong onde quer que se vá, mas aqui nota-se mais, porque é tudo em grande, e como é que vai ser quando todos os mini-chinos usarem fraldas, tiverem carros e motas, contam-se os dias de céu azul ao ano, há cheias de gente e de água, há secas de água e de gente…
E os estudantes não deixam de aumentar, os carros continuam a apitar, o sol tem vergonha e esconde-se todos os dias…

Onde é que isto vai parar?

Quando é que isto vai parar?



* E para quem nunca teve um dia de quando em vez, não pode perder agora.

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15.9.06

Amor infantil



© Rafaela Teves



O amor é um íman nos olhos.
É um íman nos lábios.
É um íman nos braços em abraços magnetizados.



O amor é uma conta de somar que dá sempre um.

Não é meio mais meio, nem três quartos com uma sala.


É um.

U-u-u-u-u-u-m-m-m-m-m…

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14.9.06

...3


© Rafaela Teves

Um curriculum.
Dois curricula.
Um em português, um em inglês.
Ter que me mostrar ao mundo.
Dizer o quê?


Toda eu sou cá dentro...

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13.9.06

Formigueiro....


© Rafaela Teves

Às oito da manhã já havia dezena e meia (no mínimo) de chineses a acartar camas, tira cama, põe colchão, põe mesa, secretária, mesinha-de-cabeceira....

O aviso que tinham colocado ontem falava só em secretária, para tirarmos tudo de lá e assim esperar que nos entrassem pelo quarto adentro e substituir a velha.

Mas é nisto que dá a "velha guarda", altamente conectada com o partido, ser saneada e virem lufadas de ar fresco.
Não conheço o novo reitor, mas já gosto dele!

É que não bastava uma televisão com telecomando, teve que mudar as janelas, casas-de-banho, com direito a imitação de mármore e tudo, e agora a mobília...
A minha universidade finalmente largou a revolução cultural e arragou-se com unhas e dentes à revolução económica.

O dragão já fumega...

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12.9.06

Os dai e a morte simples na China


© Rafaela Teves

Nós vamos a um restaurante dai (da minoria 傣族) e a coisa muda logo de figura.
Os dais são simpáticos e muito mais asseados que 10 hans juntos.
Servem comida leve e alegre como eles: arroz de ananás, bolinhas de batatas fritas, salada suavemente avinagrada, suavemente picante, umas entradas de couve e de rebentos de soja e um chá que sabe a arroz basmati. A acompanhar também pode vir o 米酒, bebida levemente alcoólica com trago a frutos tropicais.
Na mesa, há à descrição guardanapos e palitos e quando pagamos a conta, dão-nos uma pastilha de banana.
À saída fazem como todos os chineses: uma vénia, acautelando-nos 慢走 - "Vai devagar".

Hoje, na aula, continuei a perceber tudo na oralidade. Depois abre-se o livro, e os traços levam-nos a crer que a nossa vista piorou e que voltámos a trocar as linhas... Parece tudo igual...
O texto era sobre morte e a Prof. Liu ensinou-nos os diferentes nomes para os diferentes tipos de enterro praticados pelos chineses.
Sugeriu que, caso tivéssemos oportunidade, deveríamos ir assistir a um enterro chinês, porque "É tudo muito simples"...
Cristo! Que mórbida...

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11.9.06

E de repente faz-se luz....




© Rafaela Teves

As aulas começaram hoje.
Tive a única classe do dia com o Prof. Li, que já havia sido meu professor antes, e é daqueles assim à moda antiga, que nos obriga a ficar dentro da sala para além do toque (sim, aqui há toques...).
Tive a mesma primeira lição que já houvera tido há três semestres atrás, mas ao contrário daquela altura, percebi tudo! TUDO! E eu a pensar que estava num nível avançadíssimo para o chinês que durante um ano inteirinho não peguei e pensava esquecido!
Amanhã há mais! Esperemos que não haja curto-circuito...

O G. chegou hoje com lombalgia e muitas horas de espera em Amesterdão...
O corte-e-costura foi posto em dia, e celebrámos com o verdadeiro 北京烤鸭 (Pato à Pequim) e cerveja de ananás.

* Tal como nalguns restaurantes em Portugal, principalmente de marisco, também aqui se pode escolher ainda "vivo" aquilo que depois se pode comer já cozinhado no prato. Mas há peixinhos que não aguentam esperar...

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10.9.06

O Placebo fez efeito



© Rafaela Teves

Eu sempre achei que a voz ligeiramente esganiçada do senhor era um pouco descabida no conjunto de tudo o resto.
Mas depois pensa-se que se está em Pequim e que tenho os Placebo à minha frente e sempre desconfiei que eles ao vivo haviam de ser maravilhosos!

E não é que foram mesmo?
Soube a pouco...

Tal como soube a pouco a pita de cordeiro que comemos no Zouk, um restaurante/bar que serve comida do oriente médio e cachimbos de tabaco de sabores...

P.S. Na China, os guardas vão aos concertos trabalhar. Ficam sentados à frente do palco (e por isso, detêm os melhores lugares) a guardar uma distância de segurança. Depois, no meio do relvado, demarcam com as suas cadeiras, um corredor de segurança, onde ninguém pode ficar parado.
Como bons profissionais que são, limitam-se a ficar ali sentados e nunca vi nenhum abanar a cabeça ao som da música...

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8.9.06

Para mim os chineses são chineses são chineses...




© Rafaela Teves

Todos têm algo a dizer sobre a China e sobre os chineses.

Mesmo eu demorei demasiado tempo a tentar descortinar este permanente exotismo que existe na diferença verdadeiramente diferente.
Ainda me lembro, por exemplo, de outro dia estar em Itália e vir-me à cabeça: "Mas eles são tão normais. Mesmo que rodeados de coliseus e de vias imperiais!".
Mas agora toda a gente se centra aqui.

Disfarçam o seu conservadorismo e a sua xenofobia em leis anti-dumping, em seguranças sociais e em direitos humanos.
Ou exaltam o seu histerismo nas dezenas percentuais de crescimento ao ano, nos retratos ao lado de Mao na grande praça da paz celestial, na ópera estridente que nenhum ouvido aguenta.

De cada vez que volto aqui, também eu espero sentir uma força de revivalismo, de choque (cultural ou não) ou de aperto na barriga.
Talvez seja a insensibilidade que se tenha apoderado de mim, ou a dormência dum jet-leg permanente...
Talvez tenha sido eu a perder a minha casa para sempre, ou ainda ter perdido aquilo que não esperava alcançar.

Tenho cá para comigo que anda aí no ar uma mania de intelectualizar, cientificizar, interiorizar, camuflar tudo quanto aqui se passa.

Para mim os chineses são chineses são chineses...

* Nas fotos: 1. o-tratamento-de-pele-vem-dentro-da-sopa (sopa de algas) com arroz chaochao; 2. molho de soja e molho picante; 3. num fast-food chinês.

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6.9.06

A cura chinesa


© Rafaela Teves

Tirando as massagens, os cortes de cabelo a dois euros (com massagem) ou os tratamentos de acupunctura ou sementes nas orelhas, há na China uma cura para os demónios interiores.

Está-se aqui o tempo suficiente (que vai de entre 5 a 15 minutos) para nos pormos aos berros com um chinês.
Este método é normal.

Os chineses berram entre si o dia inteiro e ao fim do dia as tensões desaparecem.
Berra-se por tudo e por nada, menos por alguém nos passar à frente na fila ou alguém nos dar um encontrão ou nos levar ao chão com a bicicleta.
Vai-se berrando, berrando, berrando e depois cala-se tudo. As más energias são lançadas nesses gritos desconexos e é assim como uma diplomacia virada do avesso.

Só deste modo depois se pode apreciar melhor os momentos silenciosos e calmos da vida: os movimentos em câmara lenta da batalha do taiqi, o barulho dos grilos de bolso, o ar puro que os pássaros respiram no seu passeio do fim do dia, os chorões no seu lamento suspirando com a brisa que vai chovendo...

Com uma cura assim, mais vale querer ficar em tratamento para sempre...

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5.9.06

Aló, aló Portugal.... aquele abraço!




© Rafaela Teves


O senhor Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas é um querido!

Mandou um abraço de Portugal para todos aqueles que estão longe e louvou a coragem e determinação dos que vieram para esta terra longínqua e estranha.

O que o senhor Secretário de Estado das Comunidades Portuguesas não sabe é que, quem vem para aqui tem um parafuso a menos e tem tudo menos coragem e determinação. Como alguns amigos dizem, quem vem para a China vem em terapia curar alguma coisa...

O senhor Embaixador Plenipotenciário de Portugal em Pequim continua igual a si mesmo (seja lá o que isto quer dizer). Vai falando aqui e falando ali, vermelhinho naquelas bochechinhas chupadas dele, naquele etilismo digno de alguém que está quase a zarpar para outro posto.

O bacalhau também não mudou, não mudou o vinho do Porto nem mudaram os empregados chineses queridos que apetece levar para casa connosco.

Mas há novidades na comunidade portuguesa em Pequim: há um correspondente da Lusa com a sua mais-que-tudo, acabados de chegar, parece, da linha ali de Cascais ou coisa que o valha. A pobre menina, sem ter nada para fazer, lá tem que trabalhar a tempo parcial na altamente sem-mãos-para-medir-de-tantos-afazeres representação do ICEP na China. Coitada...
Há ainda o Gui (“Mas Gui quê? Só Gui...”), dono do Sparrow’s, com pastéis de nata, dizem, e filho do meu ex-professor/embaixador Duarte de Jesus. Cara chapada!

Quem ainda continua por estas bandas é uma alentejana castiça que antes estudava os nemátodos do arroz, mas como pelos vistos a patologia já não consegue vingar no meio científico, voltou-se agora para a genética e para o enriquecimento do dito grão, na esperança dum dia se matar a má-nutrição de tanta gente que por esse mundo come arroz fraquinho em zinco e em ferro.

Em Outubro há mais Portugal na China.

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4.9.06

São as pequenas coisas que fazem a nossa vida


© Rafaela Teves


Compus um pouco melhor o quarto com compras supérfluas.
Já conheci a minha companheira de quarto que é ucraniana.

Comprei o primeiro dvd a 50 cêntimos e fiquei admirada com o sr. Truman Capote (com legendas em português!).
Comprei a minha bici, que é velha e linda e se chama Grande Nuvem Bike e tem nuvens pintadas sobre um fundo azul.
Iniciei o meu tratamento de pele com a primeira sopa de algas.

Hoje vou à Embaixada e lembrei-me que na Quarta-feira não posso escapar-me do exame para ver em que nível fico.
Há dois anos escapei a essa vergonha. Este ano, não consigo... Buuuuuuu....


Na foto: um cego a tocar 二胡 (erhu), que significa "duas cordas". Geralmente, são só os cegos pedintes que tocam este género de violino.


Obrigada a tod@s pelos comentários no post anterior!


* Muitos parabéns menina C.!

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3.9.06

As primeiras estranhezas que espero vir a entranhar



© Rafaela Teves

Isto aqui está muito estranho.
Ora encontro tudo igual, ora está tudo tão diferente!
O número de estrangeiros é enorme e onde quer que se vá, há sempre mais do que cinco. Dantes via três ou quatro durante o ano inteiro quando ia ao distrito das embaixadas. Agora estão em toda a parte. A zona dos bares também está plena de luzes, parecem cogumelos a rebentar por todo o lado e depois metem-lhe os estrangeiros lá dentro!

Depois ainda há outras coisas que pensava impensáveis há três anos atrás: se tive que ir assistir a um concerto dos Backstreet Boys - eu sei que confessar tal facto em plena rede não abona nada a meu favor... – porque na altura foi a única coisa que apareceu, se depois no ano seguinte a coisa evoluiu muito bem para uns St Germain e uns Gotan Project, por serem patrocinados pela Embaixada Francesa na comemoração do Ano da França na China, este ano, e apesar de ser o ano da Itália, já cá vai haver Placebo e Supergrass! A 25 Euros por dois dias inteiros de concertos! Será que é mesmo verdade?

Há certas coisas que continuam.
Combinei um jantar com uma amiga numa zona que está a ser demolida.
A última vez que estivera aí, ainda sobravam alguns edifícios. Desta vez já só há dois: um restaurante e a segunda pior casa-de-banho a que já fui na vida (a outra vi ontem que já não existe). Combinámos encontrar-nos num sítio que já não existe, mas que ainda estava lá a semana passada!
Aqui é assim: havia uns edificiozinhos lindos lindos e muito típicos construídos em cima uns dos outros e criando becos e ruelas labirínticas. Os chamados 胡同 (hutongs), onde a vida se amontoa mas se tipifica, quase como se se pudesse dizer: aqui está a verdadeira Beijing. Pois então o governo não quer verdadeiras nem típicas Beijings. A partir do momento em que Deng Xiaoping decretou que afinal “enriquecer é glorioso”, e a partir do momento em que se descobriu que para enriquecer era preciso espaço, os hutongs têm os dias contados. Há inúmeros sítios da cidade que frequentei e já não estão lá.

Outra coisa impensável foi chegar aqui e poder consultar tudo o que é blospot. Dá-se um passo como estes em frente e depois ainda não se pode consultar a wikipedia. Isto é continuar no mesmo sítio!

Um grande e gigantesco passo em frente, eu diria para a humanidade, foram as alterações físicas na residência da Universidade. Mas aqui era impossível voltar atrás...

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1.9.06

Não há duas sem três e à terceira é de vez!





© Rafaela Teves


Já cheguei.
Passou tão depressa!

Porque as borboletas ficaram inebriadas com as despedidas calorosas dos amigos e com a meia-hora de sono!
E por isso, as listas aéreas ficaram adiadas em uma noite bem passada sempre a dormir.

Não houve problemas com as malas, por incrível que isso possa ser, Heathrow é descomunalmente enorme e feio e só tive mesmo tempo de ver isso, porque entre um vôo e outro só houve o autocarro entre terminais.

Depois aqui!

Beijing deu-me as boas-vindas como sempre: vestida de cinzento, cheia de buzinadelas e escarros contantes.
O cheiro dos chineses no autocarro, cheiro de que já sentia falta, mas não demasiada, cheiro de meninos e de raposinhos e de lenha queimada.

E pronto, como boa patriota que sou, vim tomar o segundo café do dia ao café que me acolheu ene tardes intermináveis e que nos mata as saudades de comida vinda do (agora) lado esquerdo do atlas.


Respiro tudo e ganho forças!
Saudades desta sensação de que um dia ainda vou mudar o mundo...

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