A sabedoria tem medo lá dentro...

© Rafaela Teves
Quando eu regressar, talvez a matriarca já cá não esteja.
Vou faltar a um casamento e vão haver três novas casas a visitar e uma outra fora daqui que ainda não se sabe qual é.
Entretanto, vou ter uma dezena e meia de horas aéreas para fazer listas de coisas que preciso para viver ali longe, outra lista de coisas que preciso de fazer enquanto lá estiver, listas importantes e mais uns minutos para decidir coisas que talvez nunca saiam dessas listas que insisto em nunca realizar.
Vou ver caras daqui que estão lá de férias, caras daqui que trabalham lá, caras que sempre conheci lá mas que não pertencem ali, caras que já partiram mas que nos vão visitar, outras mil que vou conhecer ou que simplesmente vou cruzar sem nunca saber mais nada.
Uma bicicleta.... Um frigorífico.....
Quando eu regressar, vai tudo estar diferente. A luz vai ser ainda mais forte e o céu ainda mais azul....
Panasorbe....
Pela primeira vez, a barriga tem borboletas. Tem medo do ar, tem medo de aterrar, tem medo de tudo aquilo que já sabe e medo de não vir a saber mais nada. Tem medo de tudo aquilo que já esqueceu e que agora precisava de se lembrar.
Mas as borboletas também anseiam ser pandas no Parque dos Bambús Negros, as velhinhas de madrugada no taiqi, a andar às arrecuas...
Cartão telefónico, carregar o telemóvel, telefonar a dizer que cheguei bem....
Quando eu voltar vai estar tudo igual: o céu vai estar azul, o ar vai estar quente, as casas novas vão ter as pessoas de sempre...
Só mesmo a matriarca já cá não estará. O Inverno não perdoa, o tempo não pára...
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