O amante

Rafaela Teves ©
Para K. (uma vez mais)
Às vezes preferia assim...
Olhar-te na contraluz da noite
E ver-te devagar,
Mais lentamente que o momento
Que o tempo demora a passar
Somente assim...
Tu chegavas sem avisar ou sem eu estar à tua espera
Porque a espera gasta-nos o coração
E esse precisa de forças para os abraços que ainda não te revelei...
Tu chegavas e o teu sorriso dir-me-ia que era mesmo verdade
Que sim, que estavas aqui
Depois despias-me em silêncio
E demoravas-te num qualquer sinal que pontua o meu pescoço
Só para ti, esta madrugada
Dirias
"A tua pele cheira ao orvalho que surge em cada alvorada
E tem a aspereza do horizonte do rio que corre nos teus olhos"
Dirias palavras que nunca ninguém me disse
Mas não ao ouvido
Que aí é onde se guardam todos os segredos
Dirias com o deslizar dos teus dedos,
Em novas descobertas,
No mapa que o meu corpo te traçou,
Que o alvor de cada poro meu te revela a luz branca e infinita
Que existe depois da morte
Ou então dirias
"Os teus cabelos são pedrinhas num caleidoscópio"
E eu rir-me-ia
Então dirias
"Os teus dentes são elefantes em África a passear numa savana
Ou são sementes de centeio a cair com o vento quente do fim do Verão"
Mas depois já não dirias mais nada
Paravas um pouco para me veres
E não dizias nada...
Que o amor também é belo quando mudo
Ficavas assim a deslizar por mim
E por entre o alvoroço da vida que começa
Por detrás da janela
E então já não dirias mais nada
Porque ou já eu dormiria
Ou já eu sonharia
Que te pressentia chegar nos passos lentos da noite...



