24.1.06

O amante


Rafaela Teves ©


Para K. (uma vez mais)

Às vezes preferia assim...
Olhar-te na contraluz da noite
E ver-te devagar,
Mais lentamente que o momento
Que o tempo demora a passar

Somente assim...
Tu chegavas sem avisar ou sem eu estar à tua espera
Porque a espera gasta-nos o coração
E esse precisa de forças para os abraços que ainda não te revelei...

Tu chegavas e o teu sorriso dir-me-ia que era mesmo verdade
Que sim, que estavas aqui

Depois despias-me em silêncio
E demoravas-te num qualquer sinal que pontua o meu pescoço
Só para ti, esta madrugada

Dirias
"A tua pele cheira ao orvalho que surge em cada alvorada
E tem a aspereza do horizonte do rio que corre nos teus olhos"

Dirias palavras que nunca ninguém me disse
Mas não ao ouvido
Que aí é onde se guardam todos os segredos

Dirias com o deslizar dos teus dedos,
Em novas descobertas,
No mapa que o meu corpo te traçou,
Que o alvor de cada poro meu te revela a luz branca e infinita
Que existe depois da morte

Ou então dirias
"Os teus cabelos são pedrinhas num caleidoscópio"
E eu rir-me-ia

Então dirias
"Os teus dentes são elefantes em África a passear numa savana
Ou são sementes de centeio a cair com o vento quente do fim do Verão"

Mas depois já não dirias mais nada
Paravas um pouco para me veres
E não dizias nada...
Que o amor também é belo quando mudo

Ficavas assim a deslizar por mim
E por entre o alvoroço da vida que começa
Por detrás da janela

E então já não dirias mais nada
Porque ou já eu dormiria
Ou já eu sonharia
Que te pressentia chegar nos passos lentos da noite...


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19.1.06

Novo luto


Rafaela Teves ©


Porque sim, porque não sei, ninguém entende como possas ter desaparecido assim, de tua livre e espontânea vontade, sem avisares, sem deixares nada além do teu corpo já hirto a balouçar.
Penso, terás sofrido, doeu-te, doeu-te muito, abriste os olhos, doía-te muito, certamente, demasiado, demasiado para ti... Agora persegues-me, durante o dia, quando está escuro e fecho os olhos, é a tua cara que vejo, essa cara de menino mudo, envolto em névoa de mistério, que nunca falava, que só sorria, de que rias tu, se já te foste, como poderás alguma vez ter sorrido e eu ter ouvido a tua voz, e nunca te ter roubado um beijo. Agora, é só o que quero fazer: roubar-te um beijo primeiro, depois, ouvir o teu sorriso mudo, dizer-te no eco, olha como hoje o céu está tão lindo e brilha nos teus olhos negros de menino... Mas tu já foste.

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