22.9.09

A votos

Hoje, fui votar.
 
Fui votar, que é como quem diz, fui ali aos CTT cá do sítio enviar o meu voto...
 
O mais interessante é que o senhor dos correios, que vai contribuir para que o meu voto chegue ao destino, não pode, e talvez nunca venha a poder, eleger os membros da Assembleia do seu país.
 
Ontem, já depois de ter desenhado a cruz e de ter fechado o envelope, vi as entrevistas aos principais candidatos feitas pelos Gatos Fedorentos.
 
Talvez tivesse feito melhor em deixar tudo em branco, como tenho feito das últimas vezes.
 
 
Acho que a vez mais insólita em que fui a votos foi quando voltei a votar em Portugal, já não me lembro para que eleições.
Além de ter levado comigo um scan A4 do meu cartão de eleitora (por não saber onde parava o original), muito aflita, ponho as mãos à cabeça e exclamo para o senhor das mesas: "Ai, que me esqueci de trazer uma caneta!"
Obviamente que, no mesmo nano segundo em que me lembrava que há canetas em cada "casinha", o senhor me respondia o mesmo, com ar de interrogação "donde é que esta ave rara me saíu?".
Assim que entro no lugar secreto é que me apercebo que a decisão que tomara tinha sido a de votar em branco, "para que raio é que queres tu a caneta?"...
 
Outra curiosidade, ainda em relação a estas eleições, é que a campanha do PSD foi a única a enviar-me "publicidade" para a minha morada no estrangeiro.
Questiono-me se tal facto terá alguma relação com a passagem por estes lados aqui há uns tempos dum dos representantes para os emigrantes daquele mesmo partido.
Como terão eles desencantado a minha morada, chegando ao ponto de serem mais eficazes que o próprio Centro Nacional de Eleições, que enviou o meu voto primeiro para Macau?
Ou será que todos os partidos têm acesso a este tipo de informação, mas só os sociais-democratas é que se deram ao trabalho?

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28.8.09

Inveja | | 09.05.06.

Há, neste preciso momento, dois amantes no corredor deste piso do meu prédio!

Antes de eu chegar,
abraçaram-se


no escuro,
na silhueta,
na contra-luz.

Passei...

Apanhei o elevador.
Submergi ao amor.

Regressei, já sem me lembrar que, no meu prédio, no meu piso, há este casal de amantes revelados na escuridão.
Já talvez se tenham esquecido do seu amor de (há) instantes.

Mas ainda consigo reconhecê-lo(s) naquela aurora instantânea do meu vulto a passar pelo deles, a percepcionar indescrições contidas...

Acendeu-se a luz...
Talvez, por isso...



* Parabéns M.!

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30.6.09

On Chesil Beach | | Ian McEwan

This is how the entire course of a life can be changed - by doing nothing.





Obrigada, M.

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19.6.09

Venho duma província perto de Shanghai.
Vim para a capital, porque aqui ganha-se mais dinheiro.
Também trabalho Sábados e Domingos, enquanto o meu marido fica em casa, no computador.
Ele não faz mais nada.

Quer dizer, quando arranja biscates, principalmente, na construção, trabalha que nem um louco e é capaz de ficar dois ou três dias sem dormir.

Mas, de resto, passa o tempo em casa, em jogos de computador ou no mahjong, com os amigos.
É uma pessoa que não gosta de viajar, de ir ali, ver isto, ver aquilo.

Ainda para mais, agora, que a mãe dele vive connosco, por motivos de saúde, e ainda vai ajudando lá em casa.
Eu ajudo-a a pagar as despesas do hospital e dos medicamentos.
Ela diz-me que eu sou uma nora muito boa, que não sou como as outras.


Há quase dois anos tive o filho número dois. Uma menina.
O primeiro, um rapaz, já tem quase dez anos.
Sei que o Governo, nalguns locais do país, nos deixa ter o segundo filho, se o primeiro for do sexo feminino.

Não foi o meu caso.
Mas eu sou filha única!
Além disso, o meu primeiro filho foi registado com o meu apelido, o que poderá facilitar o registo da minha menina, quando ela tiver idade para ir para a creche.

Eu só aceitei ter um segundo filho, porque a minha mãe finalmente concordou em tomar conta dos dois, na minha terra, enquanto eu e o meu marido ganhamos a vida em Pequim.
Também resolvi engravidar pela segunda vez, porque o meu marido insistiu.
A família dele é bastante grande, e só um dos irmãos é que tem apenas um filho, porque a mulher tem problemas na cabeça.
Os outros irmãos têm três ou mais filhos.

Antes desta segunda gravidez, fiz dois abortos, com os quais o meu marido nunca concordou.
Disse-me que, caso não tivéssemos outro filho, pediria o divórcio.

Não tive outro remédio.

Engravidei, mas como não se pode saber o sexo da criança antes da nascença, disse para mim mesma que, caso fosse outro rapaz, nunca iria gostar dele.
Os rapazes só dão trabalho!
Além disso, tem que se lhes preparar o futuro e comprar-lhes uma casa.
Senão, qual é a rapariga que se quererá casar com eles? Abandonar a casa dos seus pais para se mudar com um "sem-abrigo"?

Sim, é verdade que há histórias de mulheres grávidas pela segunda vez que são denunciadas por vizinhos ou por conhecidos à polícia, só porque ganham algum dinheiro com isso. E que aquelas desaparecem por uns dias, para reaparecerem sem barriga e sem bebé.
Mas isso é coisa de gente ruim.
Na minha terra, isso nunca se passaria!

Até porque eu tive a minha filha em Pequim, longe de onde venho.

Falo com ela ao telefone e visito os meus filhos duas vezes ao ano, se der.
Porque agora, os feriados oficias estão mais curtos e quase não me compensa fazer a viagem de comboio.
Só para chegar a casa, demoro um dia inteiro.
Ir de avião sai muito caro!

Não vi a menina a dar os primeiros passos e estranhou-me a primeira vez que a reencontrei.
Mas ela agora sabe quem eu sou e chama-me "Mãe".

Vou poder ir viajar quando ambos forem mais crescidos...

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10.6.09

You were looking for the key for years/ But the door was always open!

Then white people use cell phones too much, and that is destroying their brains. It's a known fact. Cell phones cause cancer in the brain and shrink your masculinity; the Japanese invented them to diminish the white man's brain and balls at the same time. I overheard this at the bus stand one night. Until then I had been very proud of my Nokia, showing it all the call-center girls I was hoping to dip my beak into, but I threw it away at once. Every call that you make to me, you have to make it on a landline. It hurts my business, but my brain is too important, sir; it's all that a thinking man has in this world.
White men will be finished within my lifetime. There are blacks and reds, too, but I have no idea what they're up to - the radio never talks about them. My humble predicition: in twenty years' time, it will be just us yellow men and brown men at the top of the pyramid, and we'll rule the whole world.
And God save everyone else.

The White Tiger, Aravind Adiga

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1.6.09

29

É assim, cada vez mais, que me sinto...

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11.5.09

E depois... | | A luta

Às vezes, há vezes em que me apetece uma banheira.

Quantas vezes, não me passa pela cabeça ir dormir a um hotel, só por uma noite, para me poder deliciar com um banho de banheira e de cabeça!

Imaginar as minhas pernas, cansadas, habituarem-se àquela água, demasiado quente, arrepiar-me com esse escaldar de pele, submergir-me naquele silêncio submarino, profundo, compassado ao meu respirar, as veias, dilatando-se, pulsando não só nos pulsos, nas pernas cansadas, que agora descansam...

 Em paz!



Não suportar aquele calor que me tapa todos os poros, sentir a pressão descer, descer, quase desistir, querer respirar por todos os poros, emergir, e sentir o novo arrepio do choque térmico, metade de mim, a telintar, a outra metade, em pleno inferno, ligar a torneira de água fria ou esperar um pouco mais, que a água, esse quase óptimo condutor térmico, arrefeça...




Submergir, de novo...
Ouvir, novamente...

Pensar que não se pensa...
Pensar como não é possível não se pensar em nada, de facto.

Mesmo de olhos fechados.
Mesmo somente com o silêncio de nós mesmos, que não é possível.




Afinal, é só uma banheira.
É só imaginação.

Imaginação que quase posso dizer verdadeira, tocável.

Verdade de sentir o vazio, o frio, o calor, o silêncio, a pressão, desaparecendo.
Ressurgindo, nesse pensar constante.






Puxar a tampa...
Ouvir o ecoar dos canos...

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